"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

terça-feira, 13 de abril de 2010

Culture, Class, Distinction, de Tony Bennett e outros




Bennett, Tony e outros (2009), Culture, Class, Distinction, Abingdon, Routledge.



O espaço dos estilos de vida é definido por outras variáveis que não a classe social. As práticas e gostos culturais das classes médias e superiores têm uma natureza ecléctica.

Culture, Class, Distinction é uma obra colectiva que consiste numa revisitação crítica a um dos mais importantes textos da sociologia moderna, La Distinction, de Pierre Bourdieu. O questionamento da perspectiva teórica, das articulações conceptuais e de alguns dos resultados inscritos em La Distinction e, subsidiariamente, noutros textos do autor francês, emergem de dados empíricos que resultaram de um inquérito por questionário à população da Grã-Bretanha acerca das suas práticas e gostos culturais e de entrevistas a alguns dos indivíduos dessa amostra.
A obra divide-se em quatro partes. A primeira começa com a apresentação das três perguntas de partida que motivaram a investigação às práticas e gostos culturais na Grã-Bretanha: 1- Até que ponto o capital cultural é um factor que promove divisões e desigualdades sociais na Grã-Bretanha contemporânea e quais as antinomias em causa?; 2- Existem ou não homologias no modo como os diferentes campos culturais são estruturados na Grã-Bretanha? Se sim, quais as formas que assumem?; 3- As vantagens associadas à posse de capital cultural tendem a reproduzir-se, nomeadamente no caso das classes médias? Como é que este tipo de processos se aplicam às desigualdades de género ou entre grupos étnicos?
De seguida é feito uma breve recensão dos impactos de La Distinction no campo da sociologia. Neste ponto é descrita a forma como esta obra influenciou a investigação e o património teórico da sociologia francesa, da cultura, dos media, da educação e da estratificação social, mas também as reservas e críticas que mereceu: por exemplo, a perda de relevância do entendimento tradicional de alta cultura numa sociedade no qual os gostos são cada vez mais plurais e diversificados ou os desafios que o desenvolvimento tecnológico colocam à definição do conceito de campo.
A primeira parte desta obra é concluída com uma apreciação das limitações metodológicas da investigação que suportou a obra La Distinction e uma síntese das críticas dos autores a algumas das propostas teóricas e conceptuais de Pierre Bourdieu, nomeadamente a admissibilidade do habitus ser um dispositivo mental com uma natureza unitária e coerente, do capital cultural se decompor em apenas três-subtipos (incorporado, institucionalizado e objectivo) e dos campos culturais se estruturarem necessariamente de forma homóloga.
De acordo com os autores, o habitus do indivíduo, essa grelha mental que tende a influenciar os modos de acção e pensamento, não obedece a princípios gerais de distinção social e de coerência disposicional. Para além disso, considera-se reducionista o desdobramento do conceito de capital cultural em apenas três sub-tipos, pois os resultados da investigação que foi levada a cabo demonstram que a explicação das práticas e gostos culturais está também associada ao “capital emocional”, ao “sub-capital cultural ” e ao “capital técnico”. Entende-se também que as oposições que se desvendam nos diferentes campos culturais (analisados do lado do consumo) variam e estão associadas a factores explicativos específicos – ao longo da obra é criticada a oposição bourdieusiana entre o princípio da necessidade das disposições culturais da classe trabalhadora e o princípio da autonomia/desinteresse subjacente às disposições culturais das classes dominantes.
Na parte II são apresentados os resultados gerais da investigação. Utilizando uma Análise de Componentes Múltiplas (o mesmo procedimento estatístico utilizado por Bourdieu em La Distinction), os autores identificaram a existência de quatro eixos que explicam a variância das práticas e gostos dos inquiridos. O primeiro, que explica cerca de 50% da variância total desses indicadores, assenta na oposição entre “compromisso com as” e “recusa das” práticas culturais. As variáveis que mais se associam com este eixo são a classe social (profissão) e o nível de educação. O segundo eixo, associado à variável idade, diferencia práticas culturais contemporâneas/comerciais das práticas estabelecidas/mais antigas. O terceiro eixo diferencia essencialmente os gostos dos inquiridos, e está fortemente associado à variável género; o quarto eixo capta “a intensidade do entusiasmo cultural” e não está associado a nenhuma variável explicativa de forma intensa – tal como o terceiro eixo explica apenas uma pequena percentagem da variância total.
Os autores confirmam a importância da classe social e do nível de escolaridade enquanto factores que contribuem para o mapeamento do espaço dos estilos de vida. Referem também que existem homologias entre os campos: por exemplo, quem gosta de jantar em restaurantes franceses tende a gostar do Impressionismo, de música clássica e da literatura moderna. Todavia, acrescentam a esta evidência três ideias fundamentais. Primeiro, as práticas e os gostos culturais são influenciados por outras variáveis que não a classe social ou o nível de escolaridade, nomeadamente a idade ou o género. Em segundo lugar, a idade e o género (ou eventualmente o grupo étnico) assumem-se como os principais factores estruturantes de alguns dos campos culturais e produzem neles tipos de oposições específicos: contemporâneo/antigo, conteúdos ficcionais focados em cuidados pessoais/conteúdos associados à robustez física. Em terceiro lugar, a principal tensão que se desvenda entre as práticas e os gostos de indivíduos pertencentes a classes sociais diferentes não tem tanto a ver com a oposição cultura popular e cultura intelectual, mas sim entre a participação ou não no mercado cultural.
“Os gostos que transpõem as fronteiras da hierarquia cultural são particularmente prevalecentes entre os indivíduos com elevado estatuto social, o que significa que a disposição omnívora pode ser uma marca de distinção” (p. 57, tradução própria).
Na parte III da obra é feita uma análise da distribuição das práticas e gostos culturais na Grã-Bretanha em cinco campos: música, leitura, arte visual, media e dos cuidados com o corpo e exercício físico. Aos dados quantitativos é acrescentada informação qualitativa decorrente das entrevistas a alguns dos inquiridos, para assim se perceber os sentidos que os actores dão às suas práticas e representações – e assim redimensionar analiticamente a informação veiculada pelo mapa dos estilos de vida.
A partir dos quatro eixos definidos (e da informação qualitativa), os autores procuraram compreender quais as oposições que prevalecem nos diversos campos (participação ou não no mercado cultural; gostos e práticas contemporâneas ou antigas…), qual a intensidade dessas oposições e que variáveis assumem um maior poder explicativo na distribuição das práticas e gostos dos britânicos em cada um dos campos.
A última parte do livro é composta por quatro capítulos: “Cultural formations of the middle class”; “Culture and the working class”; “Gender and cultural capital”; “Nation, ethnicity and globalisation”.
De acordo com os autores, a distribuição das práticas e gostos culturais da classe média britânica não decorre de uma divisão entre os “industriais” (principal recurso detido é o capital económico) e os “intelectuais” (principal recurso detido é o capital cultural). A negação desta polarização bourdieusiana relaciona-se com o facto de a classe média britânica ter um perfil no plano dos gostos e das práticas culturais “omnívoro”, isto é, um tipo de gostos e consumos ecléticos, diferenciados, muitas vezes distantes da cultura legítima.
O princípio da distinção entre a classe média e a classe trabalhadora não se encontra, portanto, na dicotomia cultura legítima/cultura popular, mas sim na relação negativa que a classe trabalhadora mantém com a maior parte dos bens e consumos culturais. A classe média distingue-se da classe popular porque embora partilhe com ela alguns gostos e práticas culturais, a amplitude das suas referências e disposições é bem mais elevada.
No terceiro capítulo desta IV parte questiona-se a pertinência teórica da não conceptualização do género enquanto capital, por parte de Bourdieu; no quarto capítulo são analisadas as relações entre capital cultural, as culturas étnicas/nacionais e as variáveis género, idade e classe social.
Culture, Class, Distinction tem várias virtualidades, a mais importante será talvez o questionamento de um dos mais influentes sistemas de pensamento da sociologia moderna a partir do mesmo processo analítico em que este se alicerçou: a elaboração teórica assente no diálogo com a realidade empírica.
Um dos aspectos teóricos mais interessantes da abordagem destes autores prende-se com a relativização dos princípios que orientam as práticas e os gostos culturais de acordo com o campo em questão e o destaque dado a variáveis como a idade e o género na explicação dessas mesmas oposições. Todavia, tal como os autores admitem, a classe social e a qualificação escolar são os factores mais importantes na definição dos gostos e das práticas culturais. Neste sentido, ao contrário do que é referido pelos autores na conclusão da obra (p. 251), parece-nos que o conceito de habitus de classe mantém a sua pertinência interpretativa. De facto, os efeitos estruturantes da variável classe social devem ser entendidos enquanto tendências e não como concretizações lineares de uma regra sociológica, pelo que a influência de outras variáveis na orientação das práticas e gostos culturais não é incompatível com o conceito de habitus de classe. Talvez por menosprezarem o alcance hermenêutico deste conceito os autores refiram que o espaço das práticas e gostos culturais na Grã-Bretanha seja caracterizado por uma paz cultural, no qual as classes trabalhadoras não se sentem hostilizadas e excluídas e as classes médias não nutrem sentimentos de superioridade ou condescendência face a estas. Provavelmente Bourdieu chamaria a este facto violência simbólica…
Frederico Pincho Cantante

Um comentário:

Eduardo Bueno disse...

Estou estudando o livro e achei sua resenha excelente! Parabéns!


Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...