"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

domingo, 30 de maio de 2010




Para quem pensa em vir estudar na Grandiosa Universidade de São Paulo – USP e morar no Conjunto Residencial da USP (CRUSP)


Está cada vez mais comum a migração de estudantes para os grandes centros universitários do país com o objetivo de adquirir uma ampla formação intelectual. Em Sociologia, os dois principais centros de excelência são a Universidade de São Paulo - USP e o Instituto Universitário des Pesquisas do Rio de Janeiro - IUPERJ. Para aqueles que forem para a USP, e pleitearem uma vaga no famigerado Conjunto Residencial da USP – CRUSP, saibam que estarão adentrando um submundo de desgraças, corrupção, suicídio, drogadição, inseguraça, medo e muita solidão. O CRUSP é habitado por estudantes deprimidos, alcoólatras, toxicômanos, com oscilações de humor constantes, alguns deles com repetidas tentativas de suicídio. Muitos alunos passam fome, vivendo, muitas vezes, numa situação de extrema pobreza.

Entretanto, excetuando-se alguns casos particulares, todos estes problemas não seriam fruto de uma conjunção astral que possibilitou um encontro nacional de estudantes portadores de transtornos psiquiátricos. Se assumirmos que as relações sociais são o mote que constitui aquilo que somos, existem dois aspectos a considerar. Primeiramente, existe o fato do estudante estar distante de parentes (pai, mãe, irmãos) e de todo o seu ciclo de relações proximais que, como bem sinalizam os psicólogos, constitui o núcleo fundamental para os mecanismos de sustenção/fortalecimento identitários. Boa parte dos estudantes vem das regiões norte e nordeste, do interior do estado de São Paulo, e muitos da periferia da grande São Paulo, que, por conta precariedade econômica, só costumam visitar os pais poucas vezes durante o ano.

Um segundo fator é que, ao chegarem à USP, uma instituição que possui traços fortemente aristocráticos – o modo de sua fundação, como bem o sabemos, atesta esta idéia – os estudantes se deparam com um ambiente hostil e pouco acalentador. Eles encontram uma opulência dentro dos departamentos, nos corredores repletos de estudantes milionários bem vestidos, nos carros importados estacionados, na profusão de conversas sobre a última moda em Paris etc. E cotidianamente, após as aulas, retornam ao ghetto para dormir ou enfrentar as filas nos bandejões. Este último, o restaurante universitário, oferece um panorama curioso para quem quer conhecer a USP. Enquanto se está na fila, é comum vermos estudantes maltrapilhos pedirem tickets para poderem comer (que custam R$1,90). Dentro do restaurante, aqueles que conseguiram um ticket, torcem para que o merendeiro que serve a comida coloque uma concha adicional de feijão ou arroz em uma vasilha plástica, estrategicamente dissimulada sob o casaco, para garantirem a janta de mais tarde. É supreendente que dentro de uma cidade de grande poder econômico e, mais ainda, dentro da maior universidade da América do Sul, muitos alunos passam fome, vivendo muitas vezes, em uma situação de extrema pobreza.

O serviço social – cujo órgão responsável é a COSEAS (Coordenadoria de Assistência Social) – praticamente inexiste ou funciona sob a égide da incompetência diante de uma situação de descaso perene da reitoria da USP. Recentemente, os estudantes invadiram a referida coordenadoria e realizaram uma devassa nos arquivos. Dentre os vários documentos que atestam a barbaridade do serviço, eles encontraram cartas de recomendação que são enviadas à COSEAS para que sejam cedidos apartamentos para protegidos de políticos. Alguns destes protegidos – segundo relatos de moradores do CRUSP – chegam a usar o apartamento como flat, onde são oferecidas festas dionisíacas e, nos finais de semana, retornam para suas residências, confortavelmente acomodados em seus automóveis. Além disso, são sociologicamente interessantes alguns documentos da COSEAS, acerca dos problemas e das soluções que deveriam ser implementadas para resolver o “problema CRUSP” (clique AQUI e veja os documentos ).

Não existe estudante que, diante de todo este contexto deletério,  vivendo em uma situação de confinamento, isolamento relacional, penúria material e completa falta perspectiva – e ainda ter que estudar em um clima de brutal competição – não desenvolva algum tipo de transtorno psiquiátrico. O problema, repito, não é a suposta “estrutura de personalidade” dos estudantes do CRUSP, mas os processos sociais que produzem e favorecem o aparecimento daqueles problemas que foram relatados. Não há como manter algo como uma “saúde emocional” diante deste contexto genuinamente uspiano que, a um só tempo, atrai jovens para o paraíso do conhecimento e da intelectualidade e lhes oferece em troca o inferno da indiferença, do desprezo e da hipócrita comiseração.

Blog da Ocupação da COSEAS: http://coseas-ocupada.wikidot.com/


4 comentários:

Sara disse...

Discordo de muitas e quase da totalidade desse seu texto meu caro, ou cara.. Moro no Crusp, vim do Nordestee faço sociologia.. Então como bom pesquisador da area das Ciências Humanas, antes de tornar um texto público, coloque o contraponto, isso e´básico para aqueles que fazer sociologia, antropologia ou ciência politica. Seu texto parece denuncia, não tem carater reflexivo e tão pouco critico, parece mais um panfleto de partido ou grupo politico.

Círculo Brasileiro de Sociologia disse...

Prezada Sara,

A equipe do CBS agradece sua atenção ao texto e ao blog.
Pedimos que considere a possibilidade de escrever um texto sociologicamente fundamentado sobre este tema para ser postado em nosso blog.

Atenciosamente,

Equipe CBS

O Próprio disse...

Sabe, Sara, tenho alguns amigos que moraram no Crusp e que confirmam essas informações e a análise do blog. Gostaria de conhecer um pouco mais a sua experiência, se ela foi diferente, e como foi. Abraço.

VYG disse...

Olha, é...e não é...rsrs!!! A Universidade dá subsidio como se fosse favor e ainda faz seleção que deixa gente de fora, é verdade.
"Criminaliza" a assistência dada, é verdade.
Os poucos pobres que entram na Universidade ficam a mercê ou das bolsas, que param de serem dadas em época de greve, ou têm de levar faculdade e trabalho juntos com conseqüência de baixa de desempenho acadêmico. Mas, assim como na selva, boa parte sobrevive aqui também boa parte sobrevive sem cair em quadro de depressão drogas, etc. É difícil comparar o mocinho classe média alta da Poli que fuma seu baseado escondido da família e faz pose de bom moço e o pessoal do CRUSP sem família pra blindar as aparências e ainda sob vigília. Acho que há descaso sim, mas não somos produto direto de um ambiente, então, péra lá! ACho esse tipo de associação extremamente reducionista!
Se por um lado denúncia certas coisas, por outro o faz de maneira bem estereotipada, como os livros naturalistas, à época do behaviorismo!


Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...