"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Trânsfugas


"Na ordem da sociabilidade e das satisfações correlatas é que o pequeno-burguês realiza os sacrifícios mais importantes, para não dizer, mais manifestos. Com a garantia de que deve sua posição apenas a seu mérito, ele está convencido de que se deve contar somente consigo para conseguir sua salvação: cada um por si, cada um consigo mesmo. A preocupação de concentrar esforços e reduzir os custos leva a romper os vínculos - até mesmo, familiares - que seriam obstáculos a ascensão individual. A pobreza tem seus círculos viciosos e os deveres de solidariedade que contribuem para acorrentar os menos desprovidos(relativamente) aos mais desprovidos transformam a miséria em um eterno recomeço. A "decolagem" supõe sempre uma ruptura, cuja negação dos antigos companheiros de infortúnio representa apenas um aspecto. Exige-se que o trânsfuga vire a mesa dos valores, proceda a uma conversão de toda a sua atitude. Assim, substituir a família numerosa - cujas causas negativas, tal como um controle insuficiente das técnicas anticoncepcionais, não são plenamente convincentes - pela família restrita ao pelo filho único e renunciar à concepção popular das relações familiares e das funções da unidade domestica; e abandonar, além das satisfações da grande família e do modo de sociabilidade tradicional com suas trocas, festas, e conflitos, às certezas proporcionadas por uma descendência numerosa, única  proteção mais ou menos segura - sobretudo, para as mães - contra as incertezas da velhice, em um universo obcecado pela instabilidade domestica e pela insegurança econômica e social. As relações familiares ou de amizade deixaram de ser para o pequeno-burguês uma certeza contra a infelicidade e a calamidade, contra a solidão e a miséria, uma rede de apoios e de proteções de que é possível receber, em caso de necessidade, uma ajuda, um empréstimo ou um emprego; elas ainda não são o que, em outras circunstâncias, se designa por "relações", ou seja, um capital social indispensável para obter o melhor rendimento do capital econômico e cultural, mas apenas entraves que devem ser derrubados, custe o que custar, porque a gratuidade, a ajuda mútua, a solidariedade, assim como as satisfações materiais e simbólicas que elas proporcionam, a curto ou longo prazos, fazem parte dos luxos proibidos." BOURDIEU, P. A Distinção: crítica social do julgamento. pp. 315-316.

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Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...