"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vale a pena conferir...

Os alternativos de Salvador


James Martins



Certa feita, ali na porta do ICBA (Goethe Institut), no Corredor da Vitória, notei uma menina que me olhava com aquela típica cara de ‘te conheço de algum lugar’. O pior foi que eu tive a mesma impressão. Cara conhecida. Afinal, sem que ela ou eu lembrássemos onde já nos tínhamos visto, a menina resolveu o impasse de forma simples e tranqüila: “É isso mesmo. A gente que é ‘alternativo’ sempre se encontra”. Ao que eu respondi: “Não. Eu não sou alternativo. Eu nasci aqui em Salvador mesmo”. Com cara de quem não entendeu, ela foi embora. Eu também fui. Mas alguém há de perguntar por que estou contando isto. E é porque, de fato, existe uma turma aqui na cidade que sempre se encontra nos mesmos lugares e, com tanta freqüência, que quase compõem uma família. São os ‘alternativos’: uma galera que vai aos shows na Concha Acústica do TCA, ao Porto da Barra, ao Largo da Dinha no Rio Vermelho, Boomerangue, Pelourinho, a certos bares que eu não lembro o nome... e gostam de Jorge Ben, de samba tradicional, Los Hermanos, de bandinhas cover de Beatles, de pastiches da Jovem Guarda, de filmes Cult, malabares, performances e de tudo o mais que esteja vigente na cartilha dos códigos de dignidade intelectual que são distribuídos (tacitamente) no meio. Os alternativos.

Mas o que significa alternativo afinal? E porque os ‘alternativos’ de Salvador se orgulham tanto de o serem (ou assim se proclamarem)? Creio que há um lapsus-linguae na aplicação do termo à determinada turma. Ora, a palavra ‘alternativo’ vem do latim (alter = outro). Logo alter + nativo dá algo do tipo: ‘nascido em outro lugar’. O que eu tentei dizer (perguntar) à minha desconhecida-íntima da porta do ICBA foi: por que é que você quer tanto assim não ser daqui? Basta observar um pouco o gosto e o comportamento dos ‘alternativos daqui’ para perceber que há um narcisismo às avessas em relação à própria origem. Alguém já disse que “o brasileiro ama se odiar”. Chegou a vez dos baianos. Ser alternativo, no nosso caso, significa, precisamente, não fazer parte dessa ralé que gerou aberrações do tipo Axé Music, Pagodão, Praia de Cantagalo, Empuuurra Piatã, Segunda-Feira Gorda da Ribeira, Arrocha, etc. Não pertencer ao mesmo chão, não ter nascido no mesmo lugar que essa gente que fala ‘queimado’ em vez de ‘bala’ e ‘picula’ para ‘pega-pega’. Ser, finalmente, menos baiano e mais inteligente, mais chique, mais bonito, mais paulista talvez, para nem sonhar com Nova York. Mas a cerne do problema está em que os ‘alternativos daqui’ sofrem de uma esquizofrenia agudíssima. E por quê? Ora, por que eles querem fazer o outro (alternativo tem o sentido de não convencional, outra opção, excentricidade, ousadia) com o mesmo, com o centro, com o majoritário. É preciso lembrar que a Bahia é um centro em si, mas é também uma periferia. Numa lógica mundial, o som do Psirico é muito mais alternativo que o do Radiohead.

E aí está a esquizofrenia: por mais que a ‘minoria de massa’ tente escapar do populachão em nome do bom gosto e dos chamados caminhos alternativos, quando alguém consegue qualquer resultado artístico-filosófico-comportamental de relevância por aqui, pode saber: “a Bahia tá viva ainda lá”. Foi assim com a Orkestra Rumpilezz, por exemplo. E aí acontece o incrível: os ‘alternativos daqui’ aderem de bom grado a esses resultados, mas sem compreender (nem aceitar) a fonte deles. O que gera distorções na apreciação e na formação das sensibilidades e dos discursos. A fonte, é bom que fique bem claro, é exatamente aquilo que os ‘alternativos daqui’ detestam: o que vem lá de baixo, da baixaria, de dentro, abaixo do nível do pré-sal, o que vem debaixo do barro do chão, o nativo. Orgulho-me de ter escrito: “se a periguete anda com o fio todo enfiado / nossa conexão é wireless”. O problema é que os membros do clube alternativo de Salvador são rasos. Ou melhor: exibem aquela profundidade de que Nelson Rodrigues diria que qualquer formiguinha atravessa com água pelas canelas. Para mim é muito significativo o fato de nunca ter visto ninguém do referido clubinho em um ensaio do Afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo, nem no Alvorada. Eles, que enchem a boca pra falar de tradição, mas só freqüentam baladas e badalações. Faça uma festa no Ilê Axé Opô Afonjá Fashion e divulguem no segundo caderno de A Tarde que vira um formigueiro de alternativos desembarcando direto do Vale do Capão. É assim que a banda toca.

Citei o tradicional bloco de carnaval Alvorada, o que me lembrou o novo reduto dos ‘alternativos daqui’: um samba tradicional light que acontece nas últimas sextas-feiras do mês no Largo de Santo Antônio Além do Carmo. É quase a mesma idéia da herdeira do Grupo Iguatemi para o bairro, mas com sandálias de couro. Costumo me referir ao evento como ‘Reserva de Proteção Ambiental do Samba’ e cito-o aqui por ser emblemático do perfil mental do clubinho citado, ao qual a menina do início deste texto tentou me filiar. O samba da reserva ambiental do Santo Antônio é samba mas não é samba. Traduzindo: é uma versão penteada, domada, desengordurada, intelectualizada do samba a partir de sua consagração como produto artístico genuíno das massas etc. etc. É o samba lavado de seus elementos pestilentos essenciais para ser vendido como coisa boa, bonita, cult e joiada para um público de estômago fraco. Um sintoma de fácil verificação: ninguém samba e ninguém sabe sambar. O que se cultiva e consome ali é justamente a idéia, ela mesma, o status, de que o samba é uma música de qualidade e refinamento (sic). Sendo ‘qualidade e refinamento’ tudo aquilo que não se pode confundir com os ademanes grosseiros dos ‘baixo-astral’, das ‘periguetes’, dos pagodeiros... Enfim, do samba. Se o Psirico aparecer por lá será enxotado a pauladas. Se o samba aparecer por lá sem maquiagem ou brucutu será barrado. E o resultado é uma música estanque, conservadora, resguardada e artificial embalando mentalidades e sensibilidades idem. Uma analogia são as catedrais que a igreja católica ergueu em nome de cristo, mas precisou, para isso, forjar um outro cristo, pacato, pregado e conservado na cruz. Um que não fugisse ao seu domínio e privilégio. Um cristo-samba onde não cabia mais o samba-cristo original, por demasiadamente inquieto e destrutivo. Não-institucionalizável. Assim, o samba da reserva ambiental do Santo Antônio é uma missa. Mas vamos profetizar: daqui a mil anos, quando o som dos inventores de hoje estiver entronizado pela intelectualidade e pelos tratados de sociologia, os ‘alternativos daqui’ também saudarão: Ave Márcio Victor!

Mas eu falei no Alvorada e não concluí. Bom, no último dia 15 de setembro, na Câmara Municipal, o presidente do divino bloco, Vadinho França, recebeu a comenda Zumbi dos Palmares. Uma noite de festa para os amantes do samba na Bahia, evidentemente. O Alvorada é tradição e amor pelo samba desde 1975. Mas eu não vi nenhum freqüentador da ‘reserva ambiental’ na festa. Acho mesmo que eles nem sabem o que significa o Alvorada e talvez sequer tenham ouvido falar na agremiação. Eles não são daqui, marinheiros sós. Em compensação, encontrei Roberto Mendes, Riachão, Cumpádi Washington e o povo da Bahia. Todos nós reunidos para reverenciar o querido Vadinho (o presidente de bloco que desce do trio pra sambar). Ainda existe gente séria nesta terra, graças a deus. Eu, que já bradei contra a baianidade excessiva, não posso me calar contra a anti-baianidade doentia. Alternativo (o não convencional, a contracultura), para mim, é o Chef Beto Pimentel, do restaurante Paraíso Tropical que, a partir da culinária local, mutilando-a e amamentando-a, cria sabores requintados e maravilhosos, numa relação dialética com a sabedoria gastronômica popular desenvolvida com ciência, capacidade e nenhuma pose. A base é uma só. Alternativo é Morotó Slim sondando a guitarra baiana. Alternativo é Aldo Brizzi e Reis. Alternativo foi o projeto Música no Boqueirão, de Dimitri Ganzelevitch. É o samba da minha terra que deixa a gente mole. Alternativo é o que responde ao regional com o universal, ao estrangeiro com o local, ao coletivo com o individual, ao centro com a periferia. O que, enquanto vai com os cajus, já volta com as castanhas. O resto é só burrice mesmo. Ou doença no pé.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Enquanto isso...

O genial estudante de pós-graduação pensa sobre a sociologia brasileira...
speakinthunderclaps:mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lançamento Caosmosis: Mezzadra, Sandro et alli - Estudios postcoloniales:Ensayos fundamentales

Um Repost Importante!

Adeus a Vivaldo da Costa Lima


James Martins


Morreu na manhã desta quarta-feira (22), o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, um dos mais importantes intelectuais do Brasil (nota sobre a morte aqui). Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, Vivaldo conhecia a vida baiana como poucos. E não de ouvir dizer. Embora fosse também um grande ouvidor. Solucionemos: conhecia de ouviver. O professor era um grande jogador de dominó e (segundo Mário Kertész) um grande cozinheiro. Pioneiro, foi um dos fundadores do CEAO (Centro de Estudos Afro Orientais) e um dos primeiros intelectuais brasileiros a visitar a África em busca de nexos e ressonâncias entre as coisas daqui e de lá. Comandou também a recuperação do Centro Histórico (Pelourinho), como diretor do IPAC. Uma de suas obras mais lembradas e citadas é ‘A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia’. Escrevia com sabor e com saber. Seus livros ficam. E o seu nome segue escrito ao lado de outros enormes, como Édison Carneiro, Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Waldir Freitas Oliveira, desbravadores dos estudos africanistas entre nós.

Por falar em Waldir Freitas Oliveira, estive com ele na última terça (dia 21/09), para uma entrevista, e perguntei do Vivaldo. “Está na UTI”, respondeu. “Jura?!? Que triste”, retruquei. Nota: Vivaldo estava bastante doente há algum tempo já, mas eu sempre soube que havia também algo de simulação nas suas lamentações, truque para emoldurar o humor inconstante. Mas não se simula uma UTI. O professor WFO continuou falando: “Mas deve deixar a UTI e passar ao apartamento ainda hoje. Vou ligar depois para saber dele”. Cheguei em casa e comentei com minha mulher: “Vivaldo está na UTI. Vou escrever um texto-homenagem a ele, ainda em vida, porque ele merece e é capaz de morrer nos próximos meses”. No dia seguinte, chegou a morte. Triste. Sempre quis fazer uma entrevista longa com Vivaldo da Costa Lima. Uma entrevista que passasse em revista toda a sua vida e sua atuação nas trincheiras da antropologia e da cultura baiana em geral. Cheguei a fazer a proposta e ouvi uma resposta que me encheu de orgulho (notem que, à época, eu nunca tinha sequer visitado uma redação de jornal): “Sim, meu filho, eu não gosto dessas coisas, mas para você eu faço porque confio na sua inteligência”. Pausa. Emendou: “E também pela nossa amizade”. Mas é possível que tenha sido apenas uma gentileza. Tanto que a entrevista nunca saiu. Convidei Carlos Pronzato para filmar e Arto Lindsay para conversar com Vivaldo junto comigo. Chegamos a esboçar um roteiro, Arto e eu. Mas a saúde de Vivaldo (e o humor) nunca permitiu a marcação da aguardada data. 

Com aquela entrevista-documentário eu pretendia, entre muitas outras coisas, alfabetizar os baianos de minha geração em Vivaldo da Costa Lima “and environs”. E não deixava de ser simbólico que os parceiros que escolhi fossem dois gringos. O ogã Vivaldo da Costa Lima, autor de estudos brilhantes sobre a comida-sacrifical, seu cavanhaque atrevido, seu modo agridoce de cumprimentar, sua cachaça, seu prato de mini acarajés na beira da praia e da mesa de dominó, era também o ouvinte atento de Chet Baker e Bartók (preferindo este aos compositores de Viena por considerá-lo mais melódico), admirador das ousadias das vanguardas, leitor dedicado de Marcel Proust. Respeitado nas universidades e nos terreiros de candomblé. No ano passado, em entrevista, citei seu nome a Mãe Stella de Oxóssi. E a venerável Iyalorixá exclamou: "Ave Maria! Tá vivo aí e eu peço a Ogum todo dia que segure ele na terra, que ele é uma figura ímpar no candomblé e na sociedade, por que é um grande professor". Ogum o tenha. Vivaldo era um homem baiano, de Feira de Santana, formado em odontologia, mas que abandonou a profissão. Verger o coloca como símbolo de humanista. Por sua causa tomei contato com a obra do 'xilo-inovador' Hélio Oliveira. Com sua morte, a Bahia perde, sem dúvida, um mestre e um amigo (o homem e o acadêmico: gêmeos). E, por coincidência, tão perto do dia de Cosme e Damião, aos quais dedicou o seu último livro publicado ('Cosme e Damião - o Culto aos Santos Gêmeos no Brasil e na África, Corrupio, 2005'). Os homens de bem desta terra dão adeus ao compadre. 

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Serviço Completo CBS: Livro + Aula

A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e a aristocracia da corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.


Áudio da aula do Prof. Sérgio Miceli sobre a obra A Sociedade de Corte
(Curso Ministrado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP)





quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Polícia Civil fecha “xerox” na Praia Vermelha - II

Atitudes desesperadas como esta não terão efeito diante da profunda democratização no acesso a bibliografias. Como aconteceu em relação ao compartilhamento de músicas, muito em breve teremos livros em diversos idiomas e um vasto material histórico completamente digitalizado e acessível com pouco mais de alguns cliques. 

Sites que comandam a digitalização no Brasil:




Polícia Civil fecha “xerox” na Praia Vermelha - I


Qua, 15 de Setembro de 2010 08:32
  Diretora da Escola de Serviço Social reage com indignação ao acontecimento

Uma operação da Polícia Civil no campus da Praia Vermelha, na noite do último dia 13, causou espanto na comunidade acadêmica. Movidos por uma denúncia anônima de violação a direitos autorais, os policiais foram a uma loja copiadora da Escola de Serviço Social, apreenderam todo o acervo (inclusive as pastas com o material pedagógico deixado pelos professores daquela Unidade) e detiveram o proprietário da copiadora, que foi encaminhado para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), na Lapa. O rapaz, identificado apenas como Henrique, foi indiciado e responderá ao processo em liberdade.


Xerox
Diretora da ESS reage com indignação

“Inadmissível!”. Foi com essa palavra que a diretora da ESS, professora Mavi Pacheco, classificou a operação policial. Para ela, em um país extremamente desigual como o Brasil, onde a produção e o acesso ao conhecimento estão na mão de poucos, a popular “xerox” é um pedaço da realidade em todas as universidades. Mavi acredita que a situação se torna ainda mais grave quando se considera a renda média dos estudantes do curso de Serviço Social: “É inadmissível que tenhamos sido objeto de uma ação da Polícia Civil, dentro de uma universidade pública, e, sobretudo, motivada por isso”, criticou. A dirigente acredita que o que está por trás de uma operação desse tipo é o interesse das grandes editoras em resguardar os direitos autorais, em contraposição aos estudantes empobrecidos que querem ter acesso ao conhecimento.

A diretora conta que não estava na Unidade quando os policiais chegaram, mas retornou assim que possível e atuou no sentido de serenar os ânimos dos presentes. A delegada responsável pela operação falava abertamente sobre a intenção de prender o rapaz da xerox: “Os estudantes estavam muito revoltados, porque o Henrique foi homenageado em uma cerimônia de colação de grau, no sábado”, contou.

Segundo um papel exibido pelos policiais, que não pôde ler mais detalhadamente, a diretora viu o registro, datado de 26 de maio deste ano, por volta de uma da manhã, através do Disque-denúncia, afirmando que havia uma copiadora na Escola de Serviço Social onde um funcionário desrespeitava direitos autorais.

Mavi explicou que o local ficou fechado durante todo o dia seguinte e que, agora, os professores do curso devem pensar em resoluções imediatas e de médio prazo para o problema: “Ficavam lá as pastas de todos os docentes, programas das disciplinas, tudo, tudo! Agora, temos que pensar um caminho que não nos exponha a essa brutalidade e garantindo o acesso à leitura. Isso é um direito que temos de assegurar; a universidade, o Estado brasileiro”, observou. 


Diretoria acredita em quebra da autonomia universitária

“Estamos aterrorizados com esta situação. Entrada da polícia civil na universidade pública fere sua autonomia. Nós não podemos deixar isso ocorrer como fato natural, independentemente de discutir a questão da lei. Não podemos achar que isso é um problema meramente legal, é problema político. A universidade tem que defender sua autonomia e o direito ao acesso ao conhecimento. Não pode tornar natural um fenômeno como esse”, analisou.


FONTE: http://www.adufrj.org.br/joomla/index.php/edicao-atual/2721-policia-civil-fecha-xerox-na-praia-vermelha.html

+ de 4.000 acessos!

sábado, 11 de setembro de 2010

Lançamento CBS - Cole, Michael - Psicologia Cultural (link corrigido)

Para os psicólogos de Portugal que acompanham o CBS e manifestam sempre palavras de apoio!

Lançamento CBS - Canguilhem, Georges - O Normal e o Patológico

Lançamento CBS - Taguieff, Pierre-André - La force du préjugé

(link corrigido)

Lançamento CBS - Guimarães, Antônio Sérgio - Classes Raças e Democracia (link corrigido)


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina...

Jogo do Bicho Sociológico - Bicho do Dia: Ave-Palito na prática do comensalismo


Até quando vou viver de comer os restos do meu orientador 1A??

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Quanto custa rechear seu Currículo Lattes

Quanto custa rechear seu Currículo Lattes






Essa não é uma coluna sobre cultura, é sobre educação. Mas o que tem mais a ver com a cultura do que a educação? 
Todo estudante universitário já ouviu falar do Currículo Lattes, todo aspirante a Mestre ou Doutor decerto já fez o seu e àqueles com pretensões acadêmicas é imprescindível atualizar seu Lattes pelo menos duas vezes por ano. O Lattes é critério quase universal para seleções de programas de pós-graduação do Brasil e do exterior, além de ser fundamental nas bancas de contratação de professores universitários em concursos e editais. Mantido pelo CNPq, é uma forma democrática de centralizar as informações acadêmicas de todo país, permitindo aos pesquisadores encontrar colegas de áreas afins e, a quem seleciona, avaliar a produção científica do aspirante à vaga.
Os críticos dizem que o Lattes transforma todo o esforço intelectual dos pesquisadores em quantidade, em números, simplificando e até ridicularizando uma produção eminentemente qualitativa. Ocorre que no final do Lattes há uma tabela informando quantos artigos foram publicados, quantos livros ou capítulos de livros, de quantos congressos o fulano participou. Mas até aí nenhuma novidade, se você começou a ler este texto provavelmente já sabe o que é e como funciona o Currículo Lattes. A novidade é que um bom Lattes tem preço.
Com o crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil e o amadurecimento da Plataforma Lattes, a corrida por "qualificação" tem sido grande, e a lógica quantitativa acaba incentivando a formação de um verdadeiro "mercado acadêmico". Já havia percebido isso ao me inscrever em um congresso, no meu caso o da ABRAPLIP, mas poderia ser de qualquer área e em qualquer lugar. Se você quer que seu trabalho seja apresentado, antes da inscrição deve enviar um resumo e aguardar o aceite. Elaborei o resumo, nas normas que exigiam, e o submeti. Em poucas semanas, um e-mail informa que o trabalho foi aprovado, e o ingênuo aqui fica feliz da vida: vai no site, preenche a ficha de inscrição, imprime o boleto, paga no banco a taxa de cento e poucos reais (há eventos de R$ 300,00, R$ 500,00, e por aí afora, especialmente se você for da área de Medicina ou Direito). No dia da minha apresentação no evento, a surpresa: havia cinco pessoas na sala: um professor e quatro apresentando trabalhos. Público para quê? Discussão para quê? Afinal, dali sairemos com um certificado (enviado por e-mail), um CD-ROM e um número a mais no Lattes!
Evidentemente, a proporção não é um por um, mas tão evidente quanto é que os congressos hoje estão inchados com dezenas de apresentações de trabalhos, e o aceite desses é uma mera formalidade. Um trabalho medíocre será aprovado se não comprometer o evento e o autor lá estará, enquanto um aluno excelente que faça um artigo excelente mas por algum motivo não possa pagar a inscrição, ah, esse não estará lá. Afinal, sai caro um bom Lattes...
Mas vamos além, afinal de contas, poucos dos que se aventuram em cursos de pós-graduação não teriam dinheiro para a inscrição de um evento desses. E a passagem? E o hotel? E férias, para quem não tem bolsa? Sim, porque se você tiver pretensão de dar aula na USP, na UFRJ ou na UFRGS, é bom sua vida acadêmica não ficar restrita a Cacimbinhas, é bom você ter ido aos eventos nacionais mais importantes da sua área, ter contatos, viajar. E não espere algum desconto especial para viagens acadêmicas por parte das companhias aéreas. Muito menos bolsas oferecidas pelos cursos de pós-graduação, a não ser em raríssimos ― e discutíveis ― casos. Afinal, sai caro um bom Lattes...
Infelizmente, não é só isso. Estávamos tão acostumados a participar de congressos e pagar por isso, estamos tão satisfeitos em aproveitar esses eventos para fazer turismo pelo Brasil (ah, claro, ninguém acha que o controle de presença nesses eventos seja muito rigoroso, né?) que nem percebemos o quão injusta é essa lógica do "pagando bem, que mal tem". Quero ir além. De uns tempos para cá, tem se tornado comum no Brasil pagar pela publicação de artigos! Sim, os artigos científicos, tão puros, tão imparciais, tão citados como referência do conhecimento pela mídia, pelos nossos professores, publicá-los também tem um preço, e bem salgado.
Ainda não havia me acontecido isso, mas uma amiga da área da Enfermagem ousou submeter seu artigo de conclusão de curso para a Revista Gaúcha de Enfermagem e, adivinhem, o artigo foi aceito para a publicação com uma condição: ela e as outras duas autoras do artigo deveriam ser assinantes da revista para essa publicação, e, claro, isso tem um custo: R$ 130,00. Cento e trinta! Fiquei pensando se já aconteceu de alguém enviar artigo e ele não ser aceito, afinal cenzinho é cenzinho...
Pensei em reclamar para a UFRGS que uma revista com seu logotipo fizesse esse tipo de coisa, mas a Universidade está em férias. Entrei em contato, então, com a Ouvidoria do Ministério da Ciência e Tecnologia, a fim de denunciar esse tipo de abuso num país e numa universidade que lutam pela inclusão acadêmica de negros e pobres. A resposta, conclusiva, me fez perceber que o Lattes realmente tem preço:
Prezado Marcelo,
A cobrança para publicação de artigos é prática frequente na área internacional, inclusive porque alguns periódicos científicos são bancados pelos próprios autores. A informação, pelos custos que envolve, resulta cara. No Brasil, esta prática ainda não está amplamente disseminada mas já é praticada, principalmente na área médica.
No caso específico, segundo sua informação, o pagamento não é propriamente pelo artigo, mas para que ela se torne sócia da revista. Sugerimos que consulte a política editorial do periódico, que deve estar impressa na própria revista ou no seu site. A política editorial informa quais são os critérios utilizados para seleção e publicação de artigos.
Nada obstante, caso ela não concorde com o critério, pode submeter seu artigo a outros periódicos que não exijam contrapartida financeira. Seguramente na sua área de especialização existem vários em todo o Brasil.
Atenciosamente,
Ouvidoria-Geral do MCT
Indignado, entrei em contato com minha orientadora de graduação, uma professora muito amiga, Doutora em Comunicação. E aí a professora me lembrou de que quando terminou seu Doutorado, recebeu pelo menos cinco cartas a parabenizando e a convidando a publicar seu belíssimo trabalho em livro. Mas, é claro, um livro acadêmico é sempre importante e, afinal, sai caro um bom Lattes. Caro quanto? Cinco mil reais.
Não posso concordar com essa lógica, e me surpreende que entidades como a UNE fiquem mais preocupadas com o preço da passagem de ônibus do que com esse tipo de descalabro. Não é novidade alguma que a seleção para os cursos de pós-graduação passam por critérios pessoais, políticos, nada objetivos, e no momento que se cria uma ferramenta para tornar a escolha um pouco mais democrática, admitiremos que essa ferramenta sirva para privilegiar os estudantes com mais poder aquisitivo? Sem demagogia, dessa forma algum pobre que entrou na universidade pelas cotas ou pelo Pró-Uni conseguirá ingressar em Mestrados e Doutorados a partir desse critério mercantilista? 
Para mim, o caso é muito grave. São essas pessoas com Lattes recheados que irão lecionar nas universidades federais e particulares (e há aos borbotões), são elas que irão formar os futuros médicos, advogados, jornalistas, professores? E quais os valores que essa geração acadêmica tem a passar? O valor do "quanto mais, melhor", do "quem pode mais, chora menos"? E essa realidade, todos sabem, se reflete desde o Ensino Fundamental, onde as creches e escolas públicas são cada vez mais abandonadas e as particulares proliferam e profissionalizam- se. Mas aí já é assunto para outra crônica...



Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...