"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vale a pena conferir...

Os alternativos de Salvador


James Martins



Certa feita, ali na porta do ICBA (Goethe Institut), no Corredor da Vitória, notei uma menina que me olhava com aquela típica cara de ‘te conheço de algum lugar’. O pior foi que eu tive a mesma impressão. Cara conhecida. Afinal, sem que ela ou eu lembrássemos onde já nos tínhamos visto, a menina resolveu o impasse de forma simples e tranqüila: “É isso mesmo. A gente que é ‘alternativo’ sempre se encontra”. Ao que eu respondi: “Não. Eu não sou alternativo. Eu nasci aqui em Salvador mesmo”. Com cara de quem não entendeu, ela foi embora. Eu também fui. Mas alguém há de perguntar por que estou contando isto. E é porque, de fato, existe uma turma aqui na cidade que sempre se encontra nos mesmos lugares e, com tanta freqüência, que quase compõem uma família. São os ‘alternativos’: uma galera que vai aos shows na Concha Acústica do TCA, ao Porto da Barra, ao Largo da Dinha no Rio Vermelho, Boomerangue, Pelourinho, a certos bares que eu não lembro o nome... e gostam de Jorge Ben, de samba tradicional, Los Hermanos, de bandinhas cover de Beatles, de pastiches da Jovem Guarda, de filmes Cult, malabares, performances e de tudo o mais que esteja vigente na cartilha dos códigos de dignidade intelectual que são distribuídos (tacitamente) no meio. Os alternativos.

Mas o que significa alternativo afinal? E porque os ‘alternativos’ de Salvador se orgulham tanto de o serem (ou assim se proclamarem)? Creio que há um lapsus-linguae na aplicação do termo à determinada turma. Ora, a palavra ‘alternativo’ vem do latim (alter = outro). Logo alter + nativo dá algo do tipo: ‘nascido em outro lugar’. O que eu tentei dizer (perguntar) à minha desconhecida-íntima da porta do ICBA foi: por que é que você quer tanto assim não ser daqui? Basta observar um pouco o gosto e o comportamento dos ‘alternativos daqui’ para perceber que há um narcisismo às avessas em relação à própria origem. Alguém já disse que “o brasileiro ama se odiar”. Chegou a vez dos baianos. Ser alternativo, no nosso caso, significa, precisamente, não fazer parte dessa ralé que gerou aberrações do tipo Axé Music, Pagodão, Praia de Cantagalo, Empuuurra Piatã, Segunda-Feira Gorda da Ribeira, Arrocha, etc. Não pertencer ao mesmo chão, não ter nascido no mesmo lugar que essa gente que fala ‘queimado’ em vez de ‘bala’ e ‘picula’ para ‘pega-pega’. Ser, finalmente, menos baiano e mais inteligente, mais chique, mais bonito, mais paulista talvez, para nem sonhar com Nova York. Mas a cerne do problema está em que os ‘alternativos daqui’ sofrem de uma esquizofrenia agudíssima. E por quê? Ora, por que eles querem fazer o outro (alternativo tem o sentido de não convencional, outra opção, excentricidade, ousadia) com o mesmo, com o centro, com o majoritário. É preciso lembrar que a Bahia é um centro em si, mas é também uma periferia. Numa lógica mundial, o som do Psirico é muito mais alternativo que o do Radiohead.

E aí está a esquizofrenia: por mais que a ‘minoria de massa’ tente escapar do populachão em nome do bom gosto e dos chamados caminhos alternativos, quando alguém consegue qualquer resultado artístico-filosófico-comportamental de relevância por aqui, pode saber: “a Bahia tá viva ainda lá”. Foi assim com a Orkestra Rumpilezz, por exemplo. E aí acontece o incrível: os ‘alternativos daqui’ aderem de bom grado a esses resultados, mas sem compreender (nem aceitar) a fonte deles. O que gera distorções na apreciação e na formação das sensibilidades e dos discursos. A fonte, é bom que fique bem claro, é exatamente aquilo que os ‘alternativos daqui’ detestam: o que vem lá de baixo, da baixaria, de dentro, abaixo do nível do pré-sal, o que vem debaixo do barro do chão, o nativo. Orgulho-me de ter escrito: “se a periguete anda com o fio todo enfiado / nossa conexão é wireless”. O problema é que os membros do clube alternativo de Salvador são rasos. Ou melhor: exibem aquela profundidade de que Nelson Rodrigues diria que qualquer formiguinha atravessa com água pelas canelas. Para mim é muito significativo o fato de nunca ter visto ninguém do referido clubinho em um ensaio do Afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo, nem no Alvorada. Eles, que enchem a boca pra falar de tradição, mas só freqüentam baladas e badalações. Faça uma festa no Ilê Axé Opô Afonjá Fashion e divulguem no segundo caderno de A Tarde que vira um formigueiro de alternativos desembarcando direto do Vale do Capão. É assim que a banda toca.

Citei o tradicional bloco de carnaval Alvorada, o que me lembrou o novo reduto dos ‘alternativos daqui’: um samba tradicional light que acontece nas últimas sextas-feiras do mês no Largo de Santo Antônio Além do Carmo. É quase a mesma idéia da herdeira do Grupo Iguatemi para o bairro, mas com sandálias de couro. Costumo me referir ao evento como ‘Reserva de Proteção Ambiental do Samba’ e cito-o aqui por ser emblemático do perfil mental do clubinho citado, ao qual a menina do início deste texto tentou me filiar. O samba da reserva ambiental do Santo Antônio é samba mas não é samba. Traduzindo: é uma versão penteada, domada, desengordurada, intelectualizada do samba a partir de sua consagração como produto artístico genuíno das massas etc. etc. É o samba lavado de seus elementos pestilentos essenciais para ser vendido como coisa boa, bonita, cult e joiada para um público de estômago fraco. Um sintoma de fácil verificação: ninguém samba e ninguém sabe sambar. O que se cultiva e consome ali é justamente a idéia, ela mesma, o status, de que o samba é uma música de qualidade e refinamento (sic). Sendo ‘qualidade e refinamento’ tudo aquilo que não se pode confundir com os ademanes grosseiros dos ‘baixo-astral’, das ‘periguetes’, dos pagodeiros... Enfim, do samba. Se o Psirico aparecer por lá será enxotado a pauladas. Se o samba aparecer por lá sem maquiagem ou brucutu será barrado. E o resultado é uma música estanque, conservadora, resguardada e artificial embalando mentalidades e sensibilidades idem. Uma analogia são as catedrais que a igreja católica ergueu em nome de cristo, mas precisou, para isso, forjar um outro cristo, pacato, pregado e conservado na cruz. Um que não fugisse ao seu domínio e privilégio. Um cristo-samba onde não cabia mais o samba-cristo original, por demasiadamente inquieto e destrutivo. Não-institucionalizável. Assim, o samba da reserva ambiental do Santo Antônio é uma missa. Mas vamos profetizar: daqui a mil anos, quando o som dos inventores de hoje estiver entronizado pela intelectualidade e pelos tratados de sociologia, os ‘alternativos daqui’ também saudarão: Ave Márcio Victor!

Mas eu falei no Alvorada e não concluí. Bom, no último dia 15 de setembro, na Câmara Municipal, o presidente do divino bloco, Vadinho França, recebeu a comenda Zumbi dos Palmares. Uma noite de festa para os amantes do samba na Bahia, evidentemente. O Alvorada é tradição e amor pelo samba desde 1975. Mas eu não vi nenhum freqüentador da ‘reserva ambiental’ na festa. Acho mesmo que eles nem sabem o que significa o Alvorada e talvez sequer tenham ouvido falar na agremiação. Eles não são daqui, marinheiros sós. Em compensação, encontrei Roberto Mendes, Riachão, Cumpádi Washington e o povo da Bahia. Todos nós reunidos para reverenciar o querido Vadinho (o presidente de bloco que desce do trio pra sambar). Ainda existe gente séria nesta terra, graças a deus. Eu, que já bradei contra a baianidade excessiva, não posso me calar contra a anti-baianidade doentia. Alternativo (o não convencional, a contracultura), para mim, é o Chef Beto Pimentel, do restaurante Paraíso Tropical que, a partir da culinária local, mutilando-a e amamentando-a, cria sabores requintados e maravilhosos, numa relação dialética com a sabedoria gastronômica popular desenvolvida com ciência, capacidade e nenhuma pose. A base é uma só. Alternativo é Morotó Slim sondando a guitarra baiana. Alternativo é Aldo Brizzi e Reis. Alternativo foi o projeto Música no Boqueirão, de Dimitri Ganzelevitch. É o samba da minha terra que deixa a gente mole. Alternativo é o que responde ao regional com o universal, ao estrangeiro com o local, ao coletivo com o individual, ao centro com a periferia. O que, enquanto vai com os cajus, já volta com as castanhas. O resto é só burrice mesmo. Ou doença no pé.

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