"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um Repost Importante!

Adeus a Vivaldo da Costa Lima


James Martins


Morreu na manhã desta quarta-feira (22), o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, um dos mais importantes intelectuais do Brasil (nota sobre a morte aqui). Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, Vivaldo conhecia a vida baiana como poucos. E não de ouvir dizer. Embora fosse também um grande ouvidor. Solucionemos: conhecia de ouviver. O professor era um grande jogador de dominó e (segundo Mário Kertész) um grande cozinheiro. Pioneiro, foi um dos fundadores do CEAO (Centro de Estudos Afro Orientais) e um dos primeiros intelectuais brasileiros a visitar a África em busca de nexos e ressonâncias entre as coisas daqui e de lá. Comandou também a recuperação do Centro Histórico (Pelourinho), como diretor do IPAC. Uma de suas obras mais lembradas e citadas é ‘A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia’. Escrevia com sabor e com saber. Seus livros ficam. E o seu nome segue escrito ao lado de outros enormes, como Édison Carneiro, Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Waldir Freitas Oliveira, desbravadores dos estudos africanistas entre nós.

Por falar em Waldir Freitas Oliveira, estive com ele na última terça (dia 21/09), para uma entrevista, e perguntei do Vivaldo. “Está na UTI”, respondeu. “Jura?!? Que triste”, retruquei. Nota: Vivaldo estava bastante doente há algum tempo já, mas eu sempre soube que havia também algo de simulação nas suas lamentações, truque para emoldurar o humor inconstante. Mas não se simula uma UTI. O professor WFO continuou falando: “Mas deve deixar a UTI e passar ao apartamento ainda hoje. Vou ligar depois para saber dele”. Cheguei em casa e comentei com minha mulher: “Vivaldo está na UTI. Vou escrever um texto-homenagem a ele, ainda em vida, porque ele merece e é capaz de morrer nos próximos meses”. No dia seguinte, chegou a morte. Triste. Sempre quis fazer uma entrevista longa com Vivaldo da Costa Lima. Uma entrevista que passasse em revista toda a sua vida e sua atuação nas trincheiras da antropologia e da cultura baiana em geral. Cheguei a fazer a proposta e ouvi uma resposta que me encheu de orgulho (notem que, à época, eu nunca tinha sequer visitado uma redação de jornal): “Sim, meu filho, eu não gosto dessas coisas, mas para você eu faço porque confio na sua inteligência”. Pausa. Emendou: “E também pela nossa amizade”. Mas é possível que tenha sido apenas uma gentileza. Tanto que a entrevista nunca saiu. Convidei Carlos Pronzato para filmar e Arto Lindsay para conversar com Vivaldo junto comigo. Chegamos a esboçar um roteiro, Arto e eu. Mas a saúde de Vivaldo (e o humor) nunca permitiu a marcação da aguardada data. 

Com aquela entrevista-documentário eu pretendia, entre muitas outras coisas, alfabetizar os baianos de minha geração em Vivaldo da Costa Lima “and environs”. E não deixava de ser simbólico que os parceiros que escolhi fossem dois gringos. O ogã Vivaldo da Costa Lima, autor de estudos brilhantes sobre a comida-sacrifical, seu cavanhaque atrevido, seu modo agridoce de cumprimentar, sua cachaça, seu prato de mini acarajés na beira da praia e da mesa de dominó, era também o ouvinte atento de Chet Baker e Bartók (preferindo este aos compositores de Viena por considerá-lo mais melódico), admirador das ousadias das vanguardas, leitor dedicado de Marcel Proust. Respeitado nas universidades e nos terreiros de candomblé. No ano passado, em entrevista, citei seu nome a Mãe Stella de Oxóssi. E a venerável Iyalorixá exclamou: "Ave Maria! Tá vivo aí e eu peço a Ogum todo dia que segure ele na terra, que ele é uma figura ímpar no candomblé e na sociedade, por que é um grande professor". Ogum o tenha. Vivaldo era um homem baiano, de Feira de Santana, formado em odontologia, mas que abandonou a profissão. Verger o coloca como símbolo de humanista. Por sua causa tomei contato com a obra do 'xilo-inovador' Hélio Oliveira. Com sua morte, a Bahia perde, sem dúvida, um mestre e um amigo (o homem e o acadêmico: gêmeos). E, por coincidência, tão perto do dia de Cosme e Damião, aos quais dedicou o seu último livro publicado ('Cosme e Damião - o Culto aos Santos Gêmeos no Brasil e na África, Corrupio, 2005'). Os homens de bem desta terra dão adeus ao compadre. 

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Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...