"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

sábado, 6 de agosto de 2011

Enquanto isso, uma pequena lembrança dos nossos livros de juventude...


Percebam o detalhe dos adjetivos associado ao substantivo "crioulo" citado no livro...



Sem dúvida alguma trata-se de um exemplo claramente racista. O autor desconsidera que os alunos que utilizaram o livro - inclusive muitos de nossa equipe -  vão associar os adjetivos "exemplificados" com o substantivo "crioulo" utilizado. 

9 comentários:

Carlos E. Faraco disse...

Sobre o post que traz minha gramática, uma observação:
Não fica clara a intenção do "percebam". Se foi para estimular alguma crítica ao livro, talvez enxergando  viés racista, seria interessante observar que o texto é um fragmento de um conto de Ivan Ângelo, muito conhecido na época. Não é dos autores da gramática (eu sou um deles) e foi incorporado, entre centenas de outros possíveis, pela gama de significados do conjunto de adjetivos - alguns expressando características negativas e outros, positivas. Quando se trabalha com adjetivos, ainda que se dê uma frase criada pelos autores da gramática - procedimento que este livro evita -, qualquer oração em que há adjetivo associado a substantivo que nomeia gente pode ser priblemática. Daí a escolha de um fragmento em que houvesse diversidade de adjetivos.
Carlos Emilio Faraco

Círculo Brasileiro de Sociologia disse...

Responsabilizar o autor do texto não resolve a questão. Vocês (Faraco e Moura) utilizaram um texto racista para produzir exemplos cujos efeitos para o leitor são racistas. Ainda mais se considerarmos a idade dos estudantes, etc. Estamos ressaltando não a vossa benevolente e ingênua intenção de explicar os usos dos adjetivos, mas os efeitos reais e concretos que o texto e a explicação evocam. Esses "exemplos" deixam marcas não apenas cognitivas mas fundamentalmente emocionais.
Não se trata aqui de dogmatismo nem caça às bruxas, mas de ponderarmos

Círculo Brasileiro de Sociologia disse...

continuando... mas ponderarmos sobre os efeitos sociais e à longo prazo do texto em uma sociedade profundamente racista como é a sociedade brasileira.

franny glass disse...

O fato de o texto ser de autoria de um escritor famoso não isenta os autores da gramática da responsabilidade de divulgar as associações de conteúdo racista presentes no excerto. Caso contrário, poderíamos estudar gramática a partir de trechos de "Mein Kampf" ou, se quisermos ser mais "modernos", da longa carta recentemente divulgada por Anders Breivik antes do atentado na Noruega.
Lembremos que essa gramática é utilizada por alunos em idade escolar e que os livros didáticos desfrutam entre esses alunos de grande prestígio e poder de enunciação de verdades. É, portanto, evidente que eles podem ser fortemente influenciados por esse conteúdo e que a responsabilidade de Faraco e Moura é imensa.
Ademais, mesmo os adjetivos supostamente positivos atribuídos ao infeliz termo "crioulo" fazem parte do repertório de estereótipos historicamente associados às pessoas de pele preta no Brasil e estão inextricavelmente ligados à representação negativa dessas pessoas. Os adjetivos "esperto" e "malandro", por exemplo, sugerem perigo e imprevisibilidade, idéias igualmente presentes no texto citado.
Espero que a edição mais recente da gramática tenha suprimido esse e outros conteúdos racistas.

Carlos E. Faraco disse...

Frany, esta edição da gramática é da década de 1980.

Carlos E. Faraco disse...

Seria interesssnte que os meus comentários feitos lá no meu mural aparecessem aqui também. Vou tentar transpor.

Carlos E. Faraco disse...

Carlos Emilio Faraco Ops, não responsabilizei ninguém. Apenas chamei a atenção para o fato de que não foi um exemplo "produzido", mas retirado de um conto que circulou muito na década em que o livro foi escrito. A obra da qual o conto faz parte ("A casa de vidro") tem como pano de fundo a ditadura militar que o autor denuncia a cada página.
Aconselharia a leitura integral do conto. Aliás, o trecho destacado faz parte de alguns exames vestibulares de instituições acima de qualquer suspeita, se o problema se resume a "benevolência". Obviamente, não preciso dizer que se trata de uma obra de ficção.
Aconselho ainda aos colegas sociólogos a leitura de um destes ensaios sobre a obra "A casa de vidro".
 ‎1. Beth Brait - "O Livro brilhante (e maroto) de Ivan Angelo"n 
2. Ediberto Coutinho - "Histórias do Brasil. Por Ivan Angelo"
3 Fábio Lucas - "Uma reflexão sobre as raízes da nacionalidade"
4. Fábio Lucas - "A Casa de Vidro"
5. Flávio Moreira da Costa - "Ivan Angelo, pondo o Brasil numa vitrine", 
6. Vilma Arêas - " O Tesouro Que Se Disfarça"

franny glass disse...

Caro Carlos Faraco,

É muito boa e produtiva essa oportunidade de debater sobre o assunto com o próprio autor da gramática. Fico contente pelo nosso diálogo.
A referida edição é a 13ª, publicada em 1994, e não na década de 1980. Segue a referência completa:

FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto de. (1994) Gramática: Fonética e fonologia, morfologia, sintaxe, estilística. São Paulo: Editora Ática. 13ª Edição

Acredito que, independentemente do valor literário da obra em questão, a reprodução desse trecho em um livro escolar é um grande equívoco. Sabendo então que o referido livro apresentava críticas à ditadura militar, a opção por esse trecho em especial me parece ainda mais aviltante. Isso porque, em vez de selecionarem um trecho que fizesse justiça ao teor geral da obra, que segundo o seu argumento é de caráter progressista, os autores preferiram reproduzir uma passagem de extração racista.
Entendo que desde a década de 1990 percorremos um longo caminho na discussão da desigualdade e discriminação racial no Brasil, o que tem contribuído para desfazer a nossa ilusão coletiva de que não somos racistas e de que as desigualdades raciais são mero resíduo de um passado longínquo. Antes dos anos 2000 o racismo era tão naturalizado na sociedade brasileira que uma gramática utilizada em centenas de escolas podia apresentar esse tipo de conteúdo sem ser alvo de pugna pública.
Por isso, como socióloga, não responsabilizo os autores da gramática individualmente por essa grave falha, mas nós, como coletividade, que falhamos em detectar esse problema.
Agradeço, Carlos, pela sua disposição em discutir assunto tão difícil.

Carlos E. Faraco disse...

A 1a. edição da obra, salvo engano crasso meu, é de final dos 80 ou coneço de 90.
Quanto ao tema, não tenho a menor dificuldade em discutir, não. Acho pertinentíssimo, mas quando se trata de ficção certamente nossas opiniões vão divergir, como divergiriam se voltasse à tona a recente questão Monteiro Lobato.
Eu remeti os interessados para análises críticas extremamente conceituadas da obra de I. Ângelo. Isso é tudo que eu posso fazer.
Um abraço.


Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...