"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante. Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades" Jean Baudrillard

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPQ


O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPQ

Autor: 
 
Considero as ciências sociais uma das formas mais completas de análise do desenvolvimento das sociedades, mais ampla que a economia, mais abrangente que a história.
Mas a maneira como o ambiente econômico tolera a chamada “masturbação sociológica” é fantástica. É hora de se começar a peneirar as teses acadêmicas bancadas pelo CNPQ e fundação de amparo à pesquisa.
Tome-se o seguinte estudo, “As regras do futebol e o uso das tecnologias de monitoramento”, de Jorge Ventura de Morais e Túlio Velho Barreto, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Esse estudo está sendo bancado pelo CNpQ, por um período que vai de 2011 a 2014.
Como informam os autores,
“neste trabalho, procuramos analisar o debate no mundo futebolístico acerca do uso  ou não de tecnologias para dirimir dúvidas sobre lances considerados polêmicos tais  como: se a bola entrou ou não no gol, se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou não etc.”
Essa é a relevante tese dos autores. O que haveria em questão tão banal – usar ou não a tecnologia – para instigar estudos sociológicos? Muito mais coisa do que pode supor a vã sociologia.
Como bons acadêmicos, o trabalho relaciona as teses a favor do uso da tecnologia e as teses contrárias.
Defender a tecnologia é simples: ela acaba com os erros de arbitragem. Então, quais os argumentos contra a tecnologia?
“O argumento (contra) baseia-se na ideia  de que o futebol reflete ou espelha a própria vida. E que neste, tal como na vida,  ocorrem erros e que eles devem ser aceitos como parte da própria dinâmica e emoção proporcionada por este esporte”.
Essa extraordinária inovação teórica, de que o esporte deve refletir as imperfeições da vida, perpassa todo o trabalho. Inclusive com uma visão absolutamente heterodoxa sobre o papel do  “juiz ladrão”:
É relevante
“a manutenção do  fator ‘erro humano’ como parte da vida e, portanto, a manutenção dos níveis de emoção inerentes à atividade esportiva, no caso, o futebol”.
Aliás, a reação do público, xingando a mãe do juiz pode ser considerado um dos ingredientes da humanização do futebol:
“Acreditamos que o que está em jogo neste debate pode ser relacionado à sugestão de Norbert Elias (Elias e Dunning, 1966 e 1995) em termos da manutenção de níveis  ótimos de equilíbrio de tensões, quer dizer, de emoções, que permeiam o fascínio que o futebol exerce sobre as multidões”.
Na sequência, uma formidável teorização sobre aspectos “fixos” e “elásticos” do futebol.
O aspecto fixo são as regras que disciplinam o jogo:
“A dimensão fixa e comum permite que o jogo seja jogado como tal e não como uma disputa generalizada, sem objetivos e desregulada”.
Já os aspectos “elásticos” decorrem do fato de que
“cada jogo é diferente do outro, o que é da natureza da própria definição do jogo”.
É apenas o início de um raciocínio muito mais elaborado:
 “sem regras, não somente o futebol, mas todos os jogos esportivos  não teriam se constituído ou mesmo mantido sua identidade”.
Após essa formidável descoberta, de que a identidade dos jogos é definida pelo conjunto de regras que os compõem, o trabalho pula do futebol para a vida e analisa a rigidez e a flexibilidade das regras na formação social.
“Sahlins interpreta as “estruturas” prescritivas como aquelas em que a ação é moldada pela regra, portanto, a ação deve reproduzir a regra; já as “estruturas” performativas são aquelas em que a regra deriva da ação e não o contrário, o que significa sociedades mais dinâmicas”.
Depois desse sobrevoo sobre a natureza das sociedades, os autores voltam de novo para o campo de futebol, analisando o impacto das tecnologias sobre o esporte:
“A bola e o uniforme têm evoluído, foram introduzidas  caneleiras para todos os jogadores e luvas para os  goleiros. Eles têm modificado a dinâmica do futebol, mas também têm afetado positivamente o físico dos jogadores”.
E volta de novo para o tema do “juiz ladrão”. Constatam com acuidade que
“a questão do erro humano no que respeita à arbitragem de jogos é tema de conversa tanto de torcedores, quanto de profissionais do futebol, incluindo os próprios jogadores”.
Não citam a fonte em que se basearam para tal constatação, mas deve ter demandado muito tempo de pesquisa.
E aí introduzem no trabalho uma nova categoria social: o torcedor com “expertise”.
“Quando o torcedor tem algum tipo de  expertise, há uma condenação da posição de perpetuar o erro humano e comumente se faz uma proposta de introdução de tecnologias para dirimir dúvidas”.
Para reforçar essa convicção, os autores trazem um exemplo que, em sua opinião, se constitui em um marco na afirmação do torcedor com “expertise”. É o depoimento de um médico espanhol, que eles foram buscar na Gazeta do Povo:
“O Real marcou um gol que foi anulado por impedimento. Os comentaristas da TV concordaram na hora [...] A jogada foi repetida por câmeras localizadas em três diferentes ângulos, e todas acusavam a posição irregular do jogador do Real. Mas em uma quarta repetição em um novo ângulo deu para perceber com toda a clareza que não havia impedimento [...] O gol, portanto, tinha  sido mal anulado pelo árbitro assistente. Neste dia começou a minha investigação, pois pensei que poderia haver algo que impedia o olho humano de assinalar corretamente o impedimento em certas ocasiões”.
Aí o médico sugeriu a abolição da lei do impedimento. Mas, com base em suas pesquisas, os autores constataram que “tal posição (o fim da lei do impedimento) não é pacífica”.
“Como veremos ao longo deste trabalho, os  dados que coletamos mostram, de forma mais específica, que este debate se encontra também no coração do futebol brasileiro e revelam,  de acordo com a tipologia de Sahlins, a convivência de diferentes concepções acerca do tópico”.
O financiamento do CNPQ
Todo esse trabalho é bancado pelo CNPQ. Os autores conseguiram que o financiamento abrangesse o período 2011-2014.
A proposta de pesquisa é a seguinte:
“O futebol é considerado o mais conhecido e amado de todos os esportes no mundo. Isto tem sido amplamente atribuído à simplicidade de suas regras, que permitem a todos jogá-lo como se deseja, a não ser pelo cumprimento de umas poucas regras básicas (não toque a bola intencionalmente com as mãos; para marcar um gol, chute a bola entre dois marcos etc). No entanto, quando se trata de futebol profissional há muita controvérsia sobre uma de suas principais regras: a Regra 11 Impedimento . Uma dessas controvérsias surgiu a partir de 2003 na Europa, particularmente na Inglaterra onde o debate em torno desse esclarecimento foi extremamente quente , quando o International Football Association Board (IFAB) órgão normativo e responsável pelas mudanças nas regras do futebol emitiu o que era para ser um esclarecimento do significado do impedimento ativo e passivo . Porém, este não parece ter sido o caso do Brasil, onde, ao que parece, as mudanças ou não foram notadas ou foram assimiladas sem maiores disputas, como procurarei detalhar quando da problematização do objeto. Já na Inglaterra, em 2003, o nível de acordo sobre o significado das mudanças era muito baixo, pois houve variadas opiniões sobre o que exatamente esses termos ativo e passivo significam. À medida que as partidas eram disputadas, tornou-se muito claro que as divergências aumentavam. Na nova interpretação, um jogador deixou de ser punido por estar em posição de impedimento se ele não estiver interferindo na jogada nem estiver ganhando vantagem de sua posição. Como é próprio dos árbitros decidir se o jogador está interferindo ou não em uma jogada específica, isso levou a disputas entre treinadores, jornalistas esportivos, árbitros, autoridades do futebol e os jogadores, no âmbito da Premier League inglesa, sobre o significado de algumas táticas agora permitidas e praticadas sob a nova interpretação. Além disso, havia divergências sobre se essas táticas estavam em conformidade com o e".

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Questionamentos ao “Ranking Universitário Folha”


Questionamentos ao “Ranking Universitário Folha”*


O jornal Folha de São Paulo divulgou hoje, dia 3 de setembro de 2012, um ranqueamento inédito: trata-se de uma listagem hierarquizada que leva em consideração unicamente as universidades brasileiras, ao modo do que se faz no exterior já há muito.
Para a organização dessa listagem foram criados critérios, como não poderia deixar de ser. Pois bem: e é neste ponto que geralmente tanto a listagem tupiniquim proposta, quanto as do exterior, recebem as mais variadas críticas de todos os lados.
De fato, o ato de classificar não é tarefa das mais fáceis em nenhum lugar: sempre se corre o risco da parcialidade, de ser tendencioso e injusto, a depender dos critérios adotados. Mesmo assim, jornalistas e suas instituições de abrigo costumam demonstrar certo afã por hierarquizações: vira e mexe surgem ranqueamentos dos mais variados, os chamados top ten. Há desde músicos de Rock and Roll, intelectuais franceses, “influentes”, e até ricaços globalizados organizados segundo a mesma lógica, a lógica dos “dez mais”.
Se em algumas vezes a curiosidade dos leitores médios de jornal pode ser saciada sem maiores problemas por meio desses indicadores de fins de semana, em outras, há fatores mais complexos implicados, fatores estes que merecem cuidadosa revisão e debate por parte de acadêmicos e demais especialistas antes de virem a público, dadas as injunções específicas daquilo que se tenta mesurar. É o caso, a meu ver, da proposta de ranqueamento de universidades, instituições cujas lógicas próprias de organização, funcionamento, inserção e relevância sociais ultrapassam, e muito, uma listagem feita sem a participação ativa de diversos acadêmicos, pensadores, pesquisadores e especialistas em educação superior, como pedagogos, cientistas sociais, historiadores etc. É o caso, por extensão, do ranqueamento proposto pela Folha, em que apenas o grupo liderado por um bioquímico da USP, em conjunto com a redação da Folha (!), desenvolveram todo o trabalho apresentado em um período de tempo escasso para uma incumbência de tal magnitude: apenas oito meses.
Sob justificativas duvidosas de colunistas do próprio jornal, como Helio Schwartzman, que diz: “sem as amarras da realidade mensurável, ciência é indistinguível de teologia e delírio”, ou então, “só conhecemos aquilo que podemos medir” (p. 3) – frase digna, aliás, de um Auguste Comte -, dá-se vazão à classificação que for, de acordo com o arbítrio que qualquer um escolher. Ora, posso propor, por exemplo, um novo sistema de mensuração de massa corpórea em que um morcego seja considerado mais leve do que uma formiga, se para tanto eu ignorar o sistema vigente e adotar outro em que a capacidade ou altura de voo representar o parâmetro central. Poderia ainda ignorar as divisões assentadas da biologia, entre mamíferos, aves e insetos, e localizar o morcego em uma nova rubrica, junto aos pássaros e demais insetos capazes de voar. Quer dizer, nem por isso “uma medida (…) mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida” (p. 3). Tampouco a ciência se distinguirá de delírio, como propõe o nobre colunista.
Em outras palavras, há de ser dotado de um ferramental analítico próprio, de uma sensibilidade especial, quer dizer, de uma sensibilidade epistemológica, um saber aprofundado sobre o fenômeno ou grupo de fenômenos que se está ordenando, classificando, hierarquizando para não incorrer na mistura imprópria do que deve permanecer separado ou na separação incorreta do que deve ser visto em conjunto. Estes são fatores mínimos que distinguem a visão do senso comum da visão do cientista, uma visão que urge ser mais elaborada, detida, percuciente, que não se dobra de imediato às pressões externas, sejam estas provenientes do “mercado” ou da “sociedade” – substantivos universalistas amiúde empregados para esconder interesses escusos de grupos particulares.
Além disso, há de se recordar que existe um controle mútuo que incide sobre as proposições efetuadas no âmbito da ciência, o que se dá por meio dos juízos e críticas emitidos pelos pares de profissão. O ranking da Folha de São Paulo, por acaso, procurou em algum momento servir-se desses instrumentos mínimos de controle de apreensão da realidade? Não seria algo imprudente tencionar a classificação das instituições científicas passando por cima de alguns critérios básicos da própria ciência? Trata-se de um dos jornais de maior circulação do país; ou seja, a listagem terá, sem dúvida, uma ressonância enorme, sobretudo em um país em que a autonomia científica ainda não foi atingida de um modo minimamente desejável.
Outras questões preliminares que devem ser levantadas são: a quê ou a quem serve a classificação proposta pela Folha? O mesmo colunista citado responde: em primeiro lugar, serviria de farol a estudantes desnorteados que se preparam para entrar em alguma instituição universitária. A princípio teria um caráter semelhante ao dessas publicações voltadas à apresentação do que consiste cada curso e quais as “melhores” universidades para se estudar. Com respeito a isto, não há muito a considerar. Talvez as mencionadas publicações especializadas cumpram bem este papel já há muito tempo.
Em segundo lugar, e aqui é que mora o perigo de fato, o colunista afirma: “O ranking (sic) é ainda uma ferramenta valiosa para as próprias instituições, que poderão acompanhar seu desenvolvimento ao longo do tempo e comparar-se” (p. 3). Neste instante a Folha de São Paulo revela seu grandioso propósito: o de, simplesmente, nortear a política educacional superior do país por meio dos critérios que ela própria, dentro da lógica jornalística, e não científica, estabeleceu. Sem entrar no mérito da função social ocupada atualmente pela grande mídia no Brasil, tem-se aqui algo no mínimo temerário: quem outorgou tamanho poder de decisão a um grupo capitalista privado, cujos propósitos, como os de qualquer outro grupo capitalista, são os de lucrar com a venda de mercadorias, no caso, de notícias e de rankings? Será que a equipe da Folha de São Paulo é suficientemente capacitada para interferir no âmbito estratégico do país, direcionando possíveis modificações que as instituições universitárias, sobretudo as de âmbito estatal, devam buscar? Houve um cuidado analítico na feitura do tal rankingproporcional à estatura daquilo a que ele se propôs? Está em jogo aqui a interferência de uma lógica heterônoma, a do jornalismo, de suas urgências e a de seu modus operandiem outra que deveria deter mínima autonomia, a científica.
ranking, em princípio, apresenta um desequilíbrio interno difícil de ser sanado: organizado em quatro indicadores, reúne dois que são minimamente objetiváveis, ou seja, discutíveis e melhoráveis, e outros dois obscuros e fora de propósito. Iniciando pelos dois indicadores “razoáveis”, os de “produção científica” e “inovação”, eles somam 60% da “nota geral” outorgada a cada instituição, sendo 55% proveniente da “produção científica” e 5% da “inovação”. Foram construídos com base nos números de artigos produzidos entre 2008-2009 por instituição, nas publicações por docentes, nas citações recebidas por cada um desses trabalhos e na quantidade de doutores que cada estabelecimento possui em seu quadro. Pode-se questionar de cara a natureza dessa distribuição: por que apenas 5% é outorgado à categoria “inovação”, sendo que este medidor é crucial em países em desenvolvimento como o Brasil, que, comprovadamente, têm sua capacidade de crescimento atrelada ao fomento da inovação? Mas isto é apenas uma questão de opinião.
Um segundo questionamento diz respeito ao eixo da “produção científica”. Deu-se preferência em tomar a totalidade de artigos produzidos por instituição, o que, fatalmente, privilegiará, na classificação final, as instituições com grande número de professores: quanto maior o número de docentes em atividade, maior o número da produção e maior a nota da instituição. Neste caso, a inserção de um simples filtro daria conta da discrepância forjada pelo ranking: bastaria dividir o número de publicações pelo número de professores de cada instituição para se atingir um fator de equilíbrio. No mais, conforme dito, são critérios passíveis de discussão, que podem ser sanados e melhorados no futuro.
Já em relação aos outros dois indicadores que compõem o ranking, não vejo possibilidade de melhoras nem razão de ser caso não haja completa reestruturação na proposta apresentada. Esclarecendo: trata-se de parâmetros “opiniáticos”, despidos da menor objetividade e que privilegiam, ao que tudo indica, as instituições de ensino localizadas em grandes centros urbanos, além de beneficiar universidades e/ou faculdades que ofereçam cursos palatáveis ao “mercado”, e não pesquisa, ensino e extensão.
Os indicadores “reputação no mercado” e “qualidade de ensino” constituem o 40% restante do índice, com 20% de peso cada um. O fator “reputação no mercado” foi construído com base em consultas a 1212 profissionais de Recursos Humanos de empresas, escolas e instituições que, conforme diz o jornal: “contratam, profissionais nos 20 cursos que mais formam no país, como administração e direito” (p. 4). Ora, vejamos: em primeiro lugar, como pode um índice que se quer geral, que universaliza “a” Universidade X em determinada posição em relação às demais, levar em consideração apenas os vinte cursos que mais “formam no país”, sendo que o foco desses cursos, de acordo com os dois exemplos, não se volta, majoritariamente, à produção científica? Não seria conferir de início a algumas universidades mais voltadas ao mercado uma prerrogativa de qualidade na posição geral do ranking que, na realidade, nada tem a ver com qualidade acadêmica, mas sim meramente com uma opção de se dedicar a cursos com maior demanda no “mercado”?
Outras questões estruturais sobre o mesmo eixo: Quem são os tais RHs consultados? Em que instituição se formaram? Como chegaram a eles? Estão uniformemente distribuídos no país? Dependendo das respostas, há clara interferência no resultado final, sobretudo em relação às instituições localizadas fora dos grandes centros, as mais prejudicadas. Por exemplo: houve consultas a profissionais de RH em Juiz de Fora? Será que nesta região a Universidade Federal de Juiz de Fora não é uma instituição praticamente absoluta – como uma USP em São Paulo – em termos de “imagem” junto aos profissionais de RH? Só para dar outro exemplo prático de uma universidade localizada fora das capitais: a campineira UNICAMP, cuja qualidade em termos de pesquisa é indiscutível, e, segundo o próprio ranking, superior às demais que ficaram à sua frente – com exceção da USP –, teve apenas 9,17% de “avaliação do mercado”, frente a 18,10% da belo-horizontina UFMG, fato que deixou a UNICAMP em quinto lugar no ranqueamento geral. Já a Universidade Presbiteriana Mackenzie, localizada na capital São Paulo, recebeu 15,90 de “avaliação do mercado”, a despeito de sua “qualidade de pesquisa”, de sua “qualidade de ensino” e de seu “indicador de inovação” serem bem inferiores com respeito aos da UNICAMP. Não caberia rever, desse modo, este quesito?
Mas há ainda outras questões cruciais: por que apenas os profissionais de RH foram consultados? Por que não procurar conhecer as opiniões de outros profissionais do mercado, já que o índice se refere à “inserção no mercado”? Não há outras maneiras – muito mais confiáveis do que meras opiniões de profissionais cujos perfis sócio-econômicos e extração de classe devem se reproduzir ao infinito – de averiguar a “capacidade de inserção no mercado” de cada instituição? Por que não se basear em pesquisas já realizadas com aqueles que estão inseridos no mercado, para saber de qual universidade provieram? Lembrando que, segundo os critérios adotados, o peso da mera opinião desses profissionais é quatro vezes mais valioso do que o quesito inovação, por exemplo. E que, ao fim e ao cabo, é a qualidade geral da instituição que se está avalizando.
Por fim, há o indicador “qualidade de ensino”, tão ou mais problemático do que o “inserção no mercado”.  Foram utilizadas, segundo o jornal, as opiniões de “597 pesquisadores com grande produção, de acordo com o CNPq” (p. 4). Esses profissionais, de acordo com o jornal, “listaram as instituições de ensino consideradas melhores por eles – universidades, faculdades ou centro universitários – na área em que atuam profissionalmente. As instituições que tiveram pelo menos três menções nessas entrevistas feitas pelo Datafolha foram consideradas na classificação” (p. 4).
Algumas questões se repetem, só que agora de outros modos: quem são esses pesquisadores? De quais instituições eles provêm? Como foram escolhidos? Somente pelo critério de “produtividade”? Ou seja, a opinião de um grande produtor de artigos é mais valiosa do que a de um acadêmico renomado, que prefira produzir livros em vez de artigos e que, desta forma, não se enquadre perfeitamente nos critérios de avaliação do CNPq? A depender da distribuição regional e de área de atuação desses pesquisadores, não haverá um desequilíbrio gritante no resultado final? Isto foi levado em consideração? Se sim, aplicou-se algum filtro? Qual?
E há ainda algo mais estarrecedor: como se pode quantificar “qualidade de ensino” por meio de citações ao vento de pesquisadores? Quais instrumentos eles possuem para avaliar a qualidade de ensino – salvo se profissionais de pedagogia ou demais envolvidos com estudos relativos à educação – se não, novamente, o mero achismo? Como um pesquisador pode avaliar com precisão o ensino em uma instituição em que ele não atua, já que, normalmente, vincula-se a apenas uma? Não há um círculo de legitimidade rondando essas opiniões, que tende a desconsiderar melhoras ou pioras sucedidas em determinadas instituições? Não se está auferindo antes as representações ideais que cada um desses entrevistados possui sobre as instituições do que, de fato, a “qualidade de ensino” de cada uma delas?
Outros questionamentos fazem-se prementes: por que não utilizar avaliações objetivas já consagradas, como as aplicadas pelo Governo Federal ao final de diversos cursos? Não seria um modo mais razoável de se mensurar a “qualidade de ensino”? Como ignorar por completo as avaliações da CAPES sobre as pós-graduações, já que, ao cabo, o que se obtém no ranqueamento é uma colocação geral da instituição de ensino, o que acarreta considerar os programas de pós-graduação, indissolúveis às imagens das universidades?
Há ainda questões e mais questões que podem ser levantadas, como a ausência de mensuração das discrepâncias existentes entre as faculdades de cada instituição, a generalização indevida, o uso de conceitos de senso comum como se significassem algoper si (por exemplo, o de “inserção no mercado de trabalho”, amplo e vago) etc. Algumas das falhas apontadas, há de se reconhecer, foram sublinhadas pelos articulistas daFolha. Reitero que não sou contrário a tentativas de classificação, ordenamento geral, hierarquização etc. das instituições de ensino. Há, porém, modos e modos de se fazer, e, conforme procurei demonstrar, a Folha e sua equipe foram, ao menos nesta primeira tentativa, infelizes, como infelizes também costumam ser os ranqueadores internacionais. Não é se legitimando através de desculpas de que “lá fora se faz assim” que se logra agregar qualidade científica e objetiva a avaliações como a proposta. Para se criticar o imputado “histórico de resistência a avaliações” (p. 3) e a reação “com veemência a quem se propõe a escrutiná-las [as universidades]” (p. 3), é necessário muito mais do que foi apresentado. E, talvez, começar a aprender a ouvir o outro lado, pois o mesmo se pode dizer da grande imprensa.
*Agradeço ao Caio Vasconcelos e à Carla Diegues algumas correções e sugestões.
O Autor, Prof. Dmitri Fernandes, é professor da UFJF

Dúvida do CBS: ranking de Universidades, existe coisa mais imbecil?

Como se eles tivessem alguma competência para isso, abaixo temos um extrato do "Ranking Universitário Folha" feito pelo jornal de mesmo nome. Aqui abaixo aparecem somente as instituições do estado da Bahia. Um detalhe chamou a atenção do pessoal do CBS. Algum estudante da USP, muito bem formado pela ECA (Escola de Comunicação e Artes), inventou uma bandeira nova para a Bahia.
Após a comunicação do CBS eles consertaram o estranho equívoco para profissionais tão bem formados.  



Complexidade de um mundo carente de inteligibilidade sobre suas próprias questões...